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Documentário explora crise de fraudes via telecomunicações em Mianmar

Fonte: Diário do Povo Online    08.10.2026 14h33

She Zhijiang, criminoso envolvido em jogos de azar online e fraudes transfronteiriças, é extraditado da Tailândia para a China em 12 de novembro. (Foto: China Daily)

Um documentário em três episódios, produzido em conjunto pelo Ministério da Segurança Pública e pelo China Media Group, revelou a dimensão e a brutalidade das operações de fraude via telecomunicações no norte de Mianmar, detalhando como a polícia chinesa desmantelou grupos criminosos, perseguiu suspeitos além-fronteiras e construiu casos que levaram a condenações históricas.

Intitulado “O Fim das Fraudes via Telecomunicações no Norte de Mianmar”, o documentário — exibido de segunda a quarta-feira — analisa redes de fraude em áreas como o estado de Wa, Kokang, Muse e Myawaddy, em Mianmar, bem como as investigações subsequentes.

Anos de fragmentação armada e governança fraca permitiram a rápida expansão desse setor. Complexos de fraude atraíam cidadãos chineses com promessas de riqueza rápida, mas, ao chegarem lá, muitos se viam presos em uma espiral de violência, dívidas e coerção.

No auge da onda de fraudes, apenas a localidade de Mong Pawk, no estado de Wa, abrigava 265 centros de fraude envolvendo cerca de 60 mil pessoas — muitas das quais protegidas por figuras locais influentes, segundo o documentário.

Um homem que retornou ao país, de sobrenome Tang, relatou ter entrado ilegalmente no norte de Mianmar em 2021 e sido levado para um centro de fraude no estado de Wa. Após não atingir as metas estabelecidas, foi forçado a assinar uma nota promissória de 70 mil yuans (US$ 10.400), sendo sucessivamente vendido entre diferentes centros e agredido. Quando ferimentos infeccionados o deixaram incapaz de caminhar, ele foi coagido a concordar com a venda de um rim para quitar a dívida. Ele exibiu a cicatriz cirúrgica diante das câmeras.

A polícia chinesa começou a intensificar o combate aos operadores de fraudes via telecomunicações em 2023. Em 26 de setembro daquele ano, Bao Junfeng, vice-comandante do Exército do Estado Unido de Wa, foi preso em Kunming, na província de Yunnan, sob a suspeita de fornecer proteção armada para operações de fraude.

A investigação voltou-se então para Kokang, onde quatro grandes famílias criminosas haviam estabelecido redes com conexões com políticos, forças armadas e negócios ligados a fraudes. Um tiroteio ocorrido em 20 de outubro de 2023, em complexos controlados pela família Ming, revelou-se um ponto de virada. Homens armados abriram fogo contra pessoas que tentavam escapar, matando quatro e ferindo outras quatro. Investigadores cruzaram informações de mais de 1.000 depoimentos de testemunhas e, posteriormente, entraram nos complexos de fraude em Kokang, ao abrigo de um mecanismo de cooperação policial entre a China e Mianmar.

Em um local de sepultamento, os investigadores encontraram três corpos em decomposição. Exames forenses confirmaram que os três haviam morrido em decorrência de ferimentos a bala.

As evidências aceleraram as ações contra a família Ming. A China emitiu mandados de prisão para quatro membros importantes do grupo em 12 de novembro de 2023. Três deles foram capturados e entregues à China quatro dias depois, enquanto Ming Xuechang, a figura central da família Ming, cometeu suicídio.

O tiroteio também expôs uma violência mais ampla em toda a rede de fraudes. O documentário relatou que a família Wei combinava influência política e proteção de forças armadas para controlar os complexos de fraude. Chen Dawei, um membro-chave da família Wei, teria ordenado execuções e matado vítimas escolhidas aleatoriamente como uma "prova de lealdade" para consolidar laços com os financiadores das fraudes.

Em outro caso, uma cicatriz em um suspeito repatriado levou a polícia a descobrir uma tentativa de fuga em massa ocorrida em 5 de agosto de 2023 no complexo Jinxin, onde guardas armados mataram seis pessoas e feriram oito.

Com a cooperação das autoridades de Mianmar, seis homens armados envolvidos no tiroteio e no sepultamento, juntamente com o financiador do complexo, Lin Jian, foram presos entre janeiro e julho de 2024.

Até 30 de janeiro de 2024, outros membros importantes das quatro principais famílias também haviam sido capturados e trazidos de volta à China.

Em 29 de setembro de 2025, um tribunal em Wenzhou, na província de Zhejiang, condenou 11 réus das quatro famílias à morte e outros cinco à morte com suspensão da execução por dois anos. O caso envolveu 12 homicídios e 16 mortes.

O documentário destacou o caso de She Zhijiang para ilustrar como os novos núcleos de atuação se desenvolveram. Investigadores afirmaram que ele criou mais de 200 plataformas de jogos de azar online no exterior antes de iniciar operações em Myawaddy, em 2017 — local onde, posteriormente, dezenas de empresas de jogos de azar e fraudes se estabeleceram.

Ele foi preso em Bangkok em agosto de 2022, e o tribunal de apelações da Tailândia manteve a decisão de extraditá-lo para a China em novembro de 2025.

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