
Passageiros que chegam ao país passam pelo controle de fronteira no Aeroporto Internacional de Sanya Phoenix, em Sanya, província de Hainan, sul da China, em 27 de março de 2026. (Foto: Meng Xushun/Xinhua)
"Vou te contar um segredinho, tá bom? Amanhã você vai virar chinês." Foi assim que Sherry Zhu, uma criadora de conteúdo sino-americana de pouco mais de 20 anos, começou um vídeo no TikTok no início deste ano.
Sua série de vídeos "Tornando-se Chinês", na qual ela brincava com regras como beber água quente, usar chinelos e não comer vegetais crus no inverno, viralizou rapidamente. Em parte inspirados por ela, milhões de usuários no exterior começaram a postar vídeos mostrando sua adoção de rotinas diárias típicas chinesas, desde beber água morna e chá de goji até usar chinelos de quarto e praticar tai chi.
O que é notável é que essa tendência cultural transfronteiriça ultrapassou as telas virtuais e se traduziu em ganhos comerciais tangíveis, na casa dos bilhões de yuans. Segundo dados da alfândega chinesa, no primeiro trimestre de 2026, as exportações de garrafas térmicas da China atingiram 5 bilhões de yuans (cerca de 732 milhões de dólares americanos). Enquanto isso, as exportações de chá chegaram a 2,7 bilhões de yuans, e as vendas externas de chaleiras elétricas alcançaram 200 milhões de yuans.
Esses números crescentes contam uma história maior, uma história em que a crescente força industrial da China caminha lado a lado com seu apelo cultural cada vez maior.
DE RECIPIENTE FUNCIONAL A ÍCONE DE ESTILO DE VIDA
Por trás do aumento das exportações, está a transformação silenciosa, porém inegável, da indústria manufatureira chinesa: produtos do dia a dia estão se transformando de itens de fábrica em declarações de moda, e de produtos funcionais em marcas de estilo de vida globalmente competitivas.
"A cultura chinesa de bem-estar definitivamente desempenhou um papel catalisador", disse Yao Huajun, presidente da Everich And Tomic Housewares Co., Ltd. Fundada em 2000, essa empresa há muito tempo se concentra nos mercados globais de utensílios para bebidas e chaleiras domésticas.
Em entrevista à agência de notícias China News Service, Yao observou que, à medida que mais consumidores internacionais reconhecem e adotam hábitos de bem-estar chineses, como beber água morna, a demanda global por garrafas térmicas e acessórios tradicionais para chá continua crescendo.
"No passado, as garrafas térmicas eram vistas apenas como utensílios práticos do dia a dia", acrescentou Yao. "Mas, atualmente, em muitos países, elas se tornaram bens de consumo populares que carregam consigo atitudes em relação a estilos de vida, apreço estético e até mesmo atributos de interação social."
A China ocupa o primeiro lugar na indústria global de fabricação de garrafas térmicas, com uma produção anual de aproximadamente 800 milhões de unidades, representando mais de 60% da produção mundial total. Essa forte capacidade produtiva é sustentada pelo polo industrial de Yongkang-Wuyi-Jinyun, na província de Zhejiang, no leste da China, um ecossistema altamente desenvolvido que serve como pilar central das exportações chinesas de garrafas térmicas.
Análises do setor revelam que esse polo responde por 70% a 80% do total das exportações chinesas de garrafas térmicas. Os fabricantes locais produzem cerca de 80% dos produtos térmicos para as principais marcas ocidentais. A uma hora de carro, todos os componentes necessários estão disponíveis, permitindo a prototipagem rápida e uma colaboração eficiente na cadeia de suprimentos.
Especialistas do setor acreditam que o interesse internacional por garrafas térmicas chinesas não é uma moda passageira. Nos próximos três a cinco anos, espera-se que os copos inteligentes capazes de monitorar o consumo de água e enviar lembretes de hidratação se tornem itens muito procurados na Europa e na América do Norte. Enquanto isso, novos materiais, como o titânio, mais leves e seguros do que as opções convencionais, estão prestes a serem adotados em larga escala.
"As exportações de garrafas térmicas chinesas não se resumem a 'vender produtos', mas sim a levar a manufatura, o design e as capacidades da marca chinesa para o mundo", afirmou Yao.
DA TENDÊNCIA ONLINE PARA O OFFLINE
Se a modernização da manufatura representa o poder tangível das exportações de bens, a disseminação de um estilo de vida cotidiano incorpora o poder brando da comunicação cultural.
Ao contrário das ondas anteriores que destacavam grandes símbolos clássicos como a Ópera de Beijing, a poesia antiga e o artesanato do patrimônio imaterial, esta tendência de "Tornar-se Chinês" está mais enraizada no cotidiano: tomar chá de goji berry numa garrafa térmica, fazer exercícios oculares entre pausas no uso de telas e tomar banhos de pés com ervas. Esses hábitos são fáceis de assimilar, simples de adotar e ricos em experiência pessoal, facilitando a quebra de barreiras interculturais.
"O fenômeno 'Tornando-se Chinês' nas redes sociais internacionais oferece um vislumbre do charme da cultura chinesa e da crescente influência global da China", disse Zhang Yuqiang, professor da Universidade de Comunicação da China.
Enquanto internautas estrangeiros se interessam por "Tornando-se Chinês" online, um número crescente de turistas estrangeiros opta por viajar para a China para vivenciar a autêntica cultura local pessoalmente.
Graças à contínua expansão dos esforços de abertura da China e à otimização das políticas de entrada, como a política de trânsito isento de visto de 240 horas, que abrange 55 países, as viagens transfronteiriças foram amplamente facilitadas. Em 2025, o número de turistas estrangeiros que entraram no país atingiu 150 milhões, um aumento anual de mais de 17%. O número de entradas de estrangeiros sem visto ultrapassou 30 milhões, registrando um crescimento anual de 49,5%.
Apenas no primeiro trimestre de 2026, as autoridades alfandegárias do país processaram mais de 230.000 solicitações de verificação de reembolso de impostos de turistas estrangeiros em partida, um aumento de cinco vezes em comparação com o mesmo período do ano anterior.
"Muitos amigos estrangeiros estão vindo à China para vivenciar intensamente as viagens de trem de alta velocidade, vestir hanfu, comer hot pot e experimentar o estilo de vida chinês em primeira mão", afirmou Wang Jun, vice-diretor da Administração Geral da Alfândega. Suas listas de compras expandiram-se para além dos eletrônicos, como smartphones e óculos de realidade virtual, passando a incluir produtos culturais e criativos, bem como brinquedos da moda.
"A China nunca tentou impor seu modo de vida ou sua cultura a terceiros. Pelo contrário: apresentamos esses aspectos às pessoas no exterior com uma atitude aberta e inclusiva, interagindo com elas de forma sincera. Essa mentalidade decorre de nossa crescente confiança cultural", disse Zhang Yuqiang.