O aço inoxidável sempre teve uma presença relativamente discreta no dia a dia. Encontrado em pias de cozinha, panelas e lixeiras, o material é conhecido por sua durabilidade e praticidade, mas não costuma ser associado ao glamour. Na 140ª Feira de Importação e Exportação da China, realizada em Guangzhou, na província de Guangdong, no sul da China, uma fabricante chinesa de joias está dando uma nova finalidade a esse metal.

A exposição de acessórios em tons dourados, prateados e cores vibrantes atraiu multidões de compradores estrangeiros à feira, também conhecida como Feira de Cantão. As peças têm a aparência de joias finas, mas a maioria é feita de aço inoxidável, oferecendo um acabamento sofisticado sem o preço elevado dos metais preciosos.
Para os consumidores, a proposta chega em um momento oportuno, diante da disparada global dos preços do ouro e da prata. “Alguns consumidores de joias estão buscando novas linhas de produtos”, afirmou Chen Danping, vice-gerente-geral da Justop Jewelry, empresa sediada em Guangzhou.
Segundo Chen, os acessórios de aço inoxidável combinam técnicas de fabricação de joias e uma aparência sofisticada com a vantagem de utilizar um material muito mais barato.
Para Jacob Ruiz Palomo, comprador espanhol, o atrativo é evidente: as joias conseguem fazer com que um material barato pareça tudo, menos barato. “Os preços competitivos não precisam vir à custa de um bom design”, observou Palomo.
Essa estratégia aponta para uma transformação mais ampla na indústria manufatureira chinesa. Durante décadas, os exportadores da China construíram sua força com base na escala de produção, na rapidez e nos custos reduzidos. Essas vantagens continuam importantes, mas muitos fabricantes estão buscando voos mais altos e tentando vencer a concorrência por meio de tecnologias mais avançadas e designs melhores.
A Feira de Cantão, uma das maiores plataformas comerciais da China, realizada duas vezes por ano, oferece um retrato dessa transição. Considerada um termômetro e uma referência para o comércio exterior chinês, a edição deste ano, que marca o 70º aniversário do evento, reúne produtos que buscam competir não apenas pela funcionalidade e pelo preço, mas também pela inteligência, pela aparência e pelo design.
O prêmio de inovação em design da feira de 2026, conhecido como CF Award, oferece uma visão dos rumos do design na indústria manufatureira chinesa. Neste ano, 222 produtos de 174 empresas foram selecionados. Os produtos equipados com inteligência artificial representaram 32% das inscrições, enquanto os produtos ecológicos e de baixo carbono corresponderam a 44%. Entre os principais vencedores estavam a motocicleta ZXMOTO 820RR e um robô-cápsula inteligente para endoscopia gástrica.
O valor do design, porém, não se limita aos produtos de alta tecnologia. Ele também pode transformar os artigos domésticos mais comuns, tornando-os mais funcionais e diferenciados.
No estande da marca EKO, sediada em Guangdong, uma linha de lixeiras de aço inoxidável demonstrou como um design bem pensado pode valorizar um objeto cotidiano. Um dos modelos, equipado com sensor automático, chamou a atenção de muitos compradores.
“A empresa presta atenção a detalhes tão pequenos quanto o ângulo de um canto e a curvatura de uma tampa”, afirmou Pan Libin, representante da marca.
“Um design bem pensado pode ampliar as possibilidades de uso de um produto”, acrescentou Pan. “Uma lixeira pode se adaptar a diferentes ambientes, da sala de estar e da cozinha ao banheiro e ao quarto. Podemos personalizar os designs de acordo com diferentes necessidades, considerando tamanho, formato, cor e espaço disponível”.
A EKO começou como fabricante de produtos para outras empresas, no modelo conhecido como OEM. Em 2007, passou a desenvolver sua própria marca, apostando no design como forma de conquistar uma posição mais diferenciada no mercado. Um de seus produtos recebeu neste ano um prêmio Red Dot, ampliando o reconhecimento internacional de seus esforços.
Para outras empresas chinesas, valorizar o patrimônio cultural nacional é outra maneira de diferenciar seus produtos.
A Zhu Bingren Copper Art, sediada em Hangzhou, na província de Zhejiang, no leste da China, é uma empresa dedicada à arte do cobre, com técnicas artesanais transmitidas ao longo de várias gerações. Neste ano, a companhia despertou grande interesse entre os compradores estrangeiros na feira.
A empresa incorpora técnicas de escultura em cobre, reconhecidas como parte do patrimônio cultural imaterial nacional da China, a produtos que vão de objetos decorativos para a casa a conjuntos de chá. Dessa forma, transforma um trabalho artesanal secular em designs contemporâneos voltados aos consumidores de todo o mundo.
“Os clientes estrangeiros demonstram um interesse especial pelos elementos tradicionais chineses”, afirmou Gu Dawei, gerente de vendas da empresa. “Ao mesmo tempo que preservamos nossas raízes culturais, também prestamos muita atenção às necessidades e preferências de diferentes mercados, para que nossos produtos conquistem consumidores em todo o mundo”.
Segundo a empresa, mais de 700 peças de demonstração levadas à feira foram adquiridas pelos compradores.
Especialistas do setor afirmam que a crescente presença do design chinês em produtos de consumo vendidos em todo o mundo se apoia nas vantagens do ecossistema industrial do país. Suas cadeias industriais completas permitem transformar rapidamente ideias criativas em produtos concretos, enquanto cadeias de suprimentos eficientes possibilitam aos fabricantes responder com agilidade às mudanças na demanda do mercado.
Michael Schjerbeck Jensen, gerente-geral da F&H Asia, afirmou à Agência de Notícias Xinhua que o desenvolvimento conjunto de produtos entre o grupo dinamarquês e seus parceiros chineses transformou repetidamente ideias em realidade. Em um mundo marcado pela incerteza, disse Jensen, as cadeias de suprimentos abrangentes, estáveis e eficientes da China oferecem uma fonte de segurança particularmente valiosa.
“A crescente presença internacional do design chinês é cada vez mais evidente”, afirmou Luo Weiyu, diretor de negócios da 3&1 Industrial Design. “Com o apoio das cadeias industriais completas da China, os designers nacionais também podem atualizar seus conceitos e lançar novos produtos rapidamente, tornando-se mais capazes de responder à demanda dos consumidores. Cada vez mais compradores de países como Itália e Japão estão buscando parcerias com designers chineses”.