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Dois cenários, uma parceria: as relações Brasil–China no contexto pós-eleitoral brasileiro de 2026

Fonte: Diário do Povo Online    20.10.2026 14h36

José Medeiros da Silva e Yang Chuqiao

No próximo domingo, dia 25 de outubro, o Brasil concluirá o processo eleitoral iniciado em 4 de outubro. No primeiro turno, além da renovação da Câmara dos Deputados, de parte do Senado Federal e das assembleias legislativas estaduais, foram eleitos 20 governadores. Neste segundo turno, além da definição dos sete governadores restantes, será decidida a principal disputa eleitoral do país: a escolha do próximo presidente da República.

Diante de um segundo turno equilibrado entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro, como indicam os resultados do primeiro turno e as pesquisas eleitorais, uma questão ganha destaque entre analistas e agentes políticos e econômicos: como se desenvolverão as relações entre Brasil e China, a depender de quem assumir a Presidência da República?

Uma eventual reeleição de Lula representaria, em princípio, a continuidade de uma política externa marcada pelo aprofundamento das relações com a China, tanto no plano bilateral quanto em mecanismos multilaterais, como o BRICS. Nesse contexto, a principal incerteza concentra-se na possibilidade de vitória de Flávio Bolsonaro: como seu governo conduziria as relações com a China, considerando suas orientações políticas e a importância estratégica que a parceria bilateral adquiriu para o Brasil?

Para responder a essas questões, consideramos necessário examinar três pontos. O primeiro é saber se as convergências de interesses estratégicos que fundamentaram o estabelecimento das relações diplomáticas entre Brasil e China em 1974 e sustentaram seu desenvolvimento desde então continuam atuais. O segundo é avaliar como os dois cenários políticos brasileiros — a continuidade do governo Lula ou a eleição de Flávio Bolsonaro — responderiam às pressões de Washington, especialmente diante do Corolário Trump à Doutrina Monroe, e quais seriam as consequências para as relações com a China. O terceiro é examinar como a China pretende preservar e desenvolver suas relações com o Brasil e a América Latina diante das mudanças de orientação política dos governos da região e da crescente competição com os Estados Unidos.

Quanto ao primeiro ponto, vale recordar que o estabelecimento das relações diplomáticas entre Brasil e China, em 1974, ocorreu em plena Guerra Fria, apesar das profundas diferenças ideológicas entre o regime militar de Ernesto Geisel e a China de Mao Zedong. Os dois governos perceberam que tais diferenças não impediam a cooperação: não eram concorrentes diretos no cenário internacional e compartilhavam interesses cuja aproximação poderia trazer benefícios mútuos. As décadas seguintes confirmaram essa avaliação. Hoje, apesar das grandes transformações ocorridas nos dois países e no mundo, a ausência de rivalidade estratégica direta permanece, e as possibilidades de complementaridade se tornaram ainda mais amplas.

Quanto ao segundo ponto, apesar de Flávio Bolsonaro ter sinalizado maior alinhamento com os Estados Unidos, inclusive ao defender a adesão do Brasil ao Escudo das Américas, iniciativa liderada por Donald Trump, os interesses econômicos, em especial os do agronegócio, favorecem uma postura pragmática em relação à China, principal parceiro comercial do país. A necessidade de atrair investimentos, inclusive chineses, fortalecer a economia e promover a inclusão social também tende a limitar alinhamentos ideológicos que possam comprometer esses interesses. Além disso, o entendimento entre Trump e Xi Jinping em busca de uma “estabilidade estratégica construtiva”, embora não elimine as rivalidades, poderá reduzir as pressões por alinhamentos exclusivos e ampliar a margem de atuação do Brasil, abrindo oportunidades para uma política externa voltada ao desenvolvimento nacional.

Quanto ao terceiro ponto, a política externa chinesa tem como princípios declarados o respeito à soberania, a não ingerência nos assuntos internos de outros países e a cooperação de benefícios mútuos. Diante das mudanças de orientação política na América Latina, Beijing tem procurado preservar o diálogo e a cooperação, em vez de reagir às diferenças ideológicas. Essa postura tende a prevalecer também nas relações com o Brasil, independentemente do resultado eleitoral, desde que preservados o respeito mútuo e os interesses fundamentais de cada país, incluindo o princípio de uma só China.

Por fim, vale destacar que a modernização chinesa tem entre seus princípios a busca de um ambiente internacional pacífico, a cooperação de benefícios mútuos e o diálogo entre povos e civilizações. Para países em desenvolvimento como o Brasil, o desafio é fortalecer sua autonomia e transformar a cooperação internacional em benefícios concretos para a população. Nesse sentido, a parceria entre Brasil e China, construída ao longo de décadas sobre bases sólidas e interesses complementares, tende a resistir às mudanças decorrentes do resultado das urnas. Qualquer que seja o cenário pós-eleitoral, permanecem as condições para aprofundar essa parceria em diferentes áreas e ampliar as oportunidades de cooperação e desenvolvimento para ambos os países, desde que saibamos aproveitá-las e enfrentar com sabedoria os desafios.

(Os autors são professores e membros do Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Estudos internacionais de Zhejiang)

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