Em um hospital chinês, a cirurgia cardíaca minimamente invasiva é rotina. No Brasil, no entanto, a realidade é diferente. Para um casal de cirurgiões brasileiros, essa diferença marcante foi o motivo da viagem.
Amanda Gabas Mercado e Eric Rodrigo Morales Mercado chegaram a Xiamen no final de abril para um programa de especialização de seis meses. O que vivenciaram transformou sua visão sobre o atendimento cardiológico.
O casal, natural de Salvador, no nordeste do Brasil, realiza o treinamento no Hospital Cardiovascular de Xiamen, vinculado à Universidade de Xiamen. Até o momento, o maior aprendizado foi a proficiência em cirurgia cardíaca endoscópica minimamente invasiva, uma técnica que ainda não foi amplamente adotada ou padronizada no sistema público de saúde brasileiro.
Amanda especializa-se no tratamento cirúrgico de cardiopatias congênitas, enquanto Eric concentra-se em cirurgia cardíaca em adultos, incluindo reparo valvular e intervenções transcateter. Eles escolheram o hospital principalmente por seus equipamentos de diagnóstico avançados, sistemas robustos de suporte médico e pelo alto volume de casos complexos de cirurgia cardíaca.
No entanto, o que realmente os impressionou foi a forma como as equipes chinesas utilizam regularmente técnicas minimamente invasivas de alta precisão na prática clínica cotidiana, apoiadas por uma triagem padronizada de pacientes, planejamento pré-operatório criterioso e um forte trabalho em equipe multidisciplinar.
"Em muitos lugares, a cirurgia minimamente invasiva é reservada para casos selecionados", disse Eric. "Aqui, é a norma para procedimentos complexos."
Um caso em particular se destacou: uma criança com cardiopatia congênita sofreu uma parada cardíaca após a cirurgia. A equipe do hospital acionou imediatamente um equipamento de oxigenação por membrana extracorpórea (ECMO) e mobilizou toda a equipe para salvar a vida da criança.
"A medicina avançada não se resume a tecnologia de ponta", disse Amanda. "Ela depende de uma equipe bem treinada, capaz de coordenar ações sob pressão extrema."
O hospital é uma das principais plataformas para intercâmbios médicos do BRICS na China. O casal participa do Programa de Visitas de Especialistas em Enxerto Cardiovascular (Heart Sapling Visiting Scholar Program), lançado em 2022, que capacita profissionais da área cardiovascular provenientes especificamente de nações do BRICS e de outras economias emergentes. A iniciativa visa suprir lacunas clínicas, compartilhar conhecimentos médicos avançados e aprofundar a cooperação prática em saúde entre os Estados-membros.
Até setembro de 2026, o programa havia capacitado 46 profissionais de 18 países, incluindo Brasil, Rússia, Índia, Egito, Etiópia e Vietnã. Vários profissionais que concluíram o programa ocupam agora cargos de destaque em importantes centros de cardiologia em seus países de origem.
Para o casal brasileiro, o programa exemplifica a cooperação prática no âmbito do BRICS. Ao contrário de visitas acadêmicas de curta duração, ele proporciona aos médicos estrangeiros uma imersão na prática clínica local, permitindo um intercâmbio abrangente sobre técnicas cirúrgicas, conceitos médicos e modelos de assistência.
"Isso transforma a cooperação internacional em algo tangível. Não se trata apenas de treinamento; é um investimento de longo prazo na capacitação e no desenvolvimento da saúde pública em todo o BRICS", afirmou Eric.
O casal já tem um plano de ação definido para a carreira quando retornar ao Brasil. Amanda contou que eles pretendem introduzir de forma sistemática a cirurgia cardíaca minimamente invasiva, formar equipes multidisciplinares e compartilhar o conhecimento adquirido para beneficiar os pacientes brasileiros.
Eric ressaltou a necessidade de adaptação. "Não vamos simplesmente copiar as técnicas", afirmou ele. "Precisamos ajustar os protocolos chineses, que já estão consolidados, aos recursos, às condições de custo e aos perfis de pacientes do Brasil, visando oferecer um atendimento cardiológico menos invasivo e que proporcione uma recuperação mais rápida."
Olhando para o futuro, ambos defendem um aprofundamento da cooperação cardiovascular entre as nações do BRICS. "Precisamos evoluir de intercâmbios individuais de curta duração para parcerias institucionais estratégicas de longo prazo, abrangendo treinamento, pesquisa clínica e inovação em tecnologia médica", enfatizou Eric.
"A medicina não tem fronteiras", afirmaram.