Zhou Zhiwei
Em 25 de outubro, no horário local, foram divulgados os resultados do segundo turno das eleições presidenciais de 2026 no Brasil. O candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) e atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, derrotou Flávio Bolsonaro, candidato do Partido Liberal (PL), e garantiu sua reeleição. Com 99,80% das urnas apuradas, Lula obteve 51,76% dos votos, contra 48,24% de seu adversário.
Lula tomará posse oficialmente em 5 de janeiro de 2027, iniciando um novo mandato de quatro anos. As eleições presidenciais brasileiras despertaram grande atenção da comunidade internacional, pois seus resultados não apenas influenciam os rumos da política interna do Brasil, como também exercem um impacto significativo sobre a América Latina e o cenário mundial.
A importância particular desta eleição se manifesta em vários aspectos. Em primeiro lugar, os dois candidatos possuem trajetórias políticas singulares. Lula é uma das figuras mais representativas da esquerda latino-americana. Esta foi sua sétima candidatura à Presidência e, provavelmente, sua última disputa pelo cargo. Flávio Bolsonaro, por sua vez, é filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e assumiu a liderança da campanha do campo político da direita brasileira.
Nas eleições presidenciais de 2018 e 2022, Jair Bolsonaro e Lula venceram uma disputa cada um, fazendo com que o pleito de 2026 se tornasse decisivo para romper o equilíbrio na rivalidade entre os dois campos políticos.
Em segundo lugar, a disputa eleitoral foi acirrada do início ao fim. As pesquisas de opinião e os resultados do primeiro turno apontavam para uma diferença reduzida entre os dois candidatos. No primeiro turno, Lula chegou a ficar 1,87 ponto percentual atrás de seu adversário, mantendo o resultado final em aberto até à votação do segundo turno.
Além disso, o resultado das eleições tem implicações profundas para o cenário político latino-americano. Nos últimos três anos, a região tem registrado uma tendência geral de deslocamento político à direita. Nesse contexto, as eleições brasileiras representaram, na prática, uma disputa sobre os rumos do desenvolvimento regional.
Por fim, os Estados Unidos interferiram no processo eleitoral brasileiro em diferentes frentes, incluindo as áreas judicial, econômica e de segurança, introduzindo fatores externos de incerteza e conferindo à eleição também um significado relacionado à defesa da autonomia nacional.
A vitória de Lula, que passou de uma posição de desvantagem no primeiro turno à liderança no segundo, rompeu um precedente nas eleições presidenciais brasileiras realizadas desde a redemocratização, período em que nenhum candidato havia conseguido reverter esse tipo de resultado para vencer a disputa.
Isso representa uma vantagem política temporária para a esquerda brasileira e contém, ao menos por enquanto, o avanço da tendência de guinada à direita na América Latina.
Entretanto, as eleições também evidenciaram que a estrutura de forças políticas no Brasil não sofreu mudanças fundamentais. Embora Flávio Bolsonaro tenha perdido a disputa presidencial, as forças de direita obtiveram resultados expressivos nas eleições legislativas e para os governos estaduais.
O Partido Liberal, ao qual Flávio pertence, tornou-se a maior força política tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado Federal. O confronto entre direita e esquerda continua, portanto, sendo uma característica central da política brasileira.
Nos próximos quatro anos, o governo Lula continuará enfrentando a oposição e os mecanismos de contenção exercidos pelas forças de direita no Congresso Nacional e na sociedade. As disputas em torno do poder legislativo e da opinião pública deverão marcar todo o seu novo mandato.
No campo das políticas públicas, o novo mandato de Lula dará continuidade à linha de governo adotada desde seu retorno à Presidência, em 2023. Na economia, o governo deverá reforçar a capacidade de regulação econômica do Estado, com atenção à melhoria da situação fiscal, avanço na reforma tributária, conciliação da transição ecológica com o desenvolvimento das exportações agrícolas, ampliação dos investimentos em infraestrutura e implementação da estratégia de reindustrialização.
Na área social, pretende preservar os programas de assistência social existentes, aumentar os investimentos em educação e saúde, promover a igualdade racial e de gênero e buscar reduzir as divisões sociais no país.
Na política externa, Lula deverá manter a autonomia estratégica, priorizar a cooperação Sul-Sul, rejeitar a confrontação entre blocos e adotar uma diplomacia diversificada e equilibrada. Também buscará promover novas iniciativas de integração latino-americana, aprofundar a participação do Brasil na cooperação entre os países do BRICS e dar voz aos países do Sul Global em plataformas multilaterais, como as Nações Unidas e o G20.
A reeleição de Lula também oferece uma oportunidade importante para a continuidade do desenvolvimento das relações entre Brasil e China. Em seu quarto mandato presidencial, Lula deverá consolidar ainda mais os vínculos econômicos e comerciais com a China, ampliar continuamente o uso de moedas nacionais nas transações bilaterais, aprofundar a cooperação científica e tecnológica entre os dois países e explorar novas possibilidades de colaboração em áreas emergentes, como a economia digital e o desenvolvimento sustentável. Esses esforços contribuirão para fortalecer a coordenação estratégica entre Brasil e China nos assuntos globais.
(O autor é pesquisador do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Academia Chinesa de Ciências Sociais e diretor executivo do Centro de Estudos Brasileiros.)