
Um foguete Longa Marcha-2F Y22, transportando a espaçonave Shenzhou-22, decola do Centro de Lançamento de Satélites de Jiuquan, no noroeste da China, em 25 de novembro de 2025. (Foto de Ge Lixin/Xinhua)
Um dos legados mais visíveis da "Longa Marcha" do Exército Vermelho — uma odisseia militar de aproximadamente 12.500 km que terminou há 90 anos — é, sem dúvida, a família de foguetes que leva o mesmo nome.
Entre os veículos lançadores mais utilizados no mundo, os foguetes chineses da família "Longa Marcha" transportam, há mais de meio século, satélites, espaçonaves tripuladas e sondas científicas para a órbita terrestre e além, desempenhando um papel fundamental na abertura do caminho da China rumo ao espaço.
O nome foi sugerido por diversos pioneiros da indústria aeroespacial chinesa. "Significava que o desenvolvimento dos foguetes superaria todas as dificuldades e alcançaria a vitória, assim como o Exército Vermelho fez durante a Longa Marcha", afirmou Han Houjian, projetista-chefe do foguete Longa Marcha-1, que realizou seu voo inaugural em 1970.
Em 24 de abril de 1970, o Longa Marcha-1 decolou levando o Dongfanghong-1 — o primeiro satélite chinês — à órbita. Desde então, essa família de foguetes evoluiu para uma frota diversificada de veículos lançadores, com capacidades de carga útil cada vez maiores. Até 10 de outubro de 2026, a família havia realizado 671 lançamentos orbitais.
A trajetória por trás desses foguetes chineses remete à do Exército Vermelho: ambas marcadas por imensas adversidades, perseverança inabalável e a determinação de seguir em frente, apesar de todos os obstáculos.

Uma foto aérea, captada por um drone em 16 de setembro de 2026, mostra a Ponte Luding, localizada no condado de Luding, na Prefeitura Autônoma Tibetana de Garze, na província de Sichuan, sudoeste da China. (Xinhua/Wang Xi)
Em outubro de 1934, o Partido Comunista da China (PCCh) foi forçado a retirar-se da Área Soviética Central, na província de Jiangxi, no leste da China, e a deslocar-se para o noroeste, após resistir a uma série de campanhas de cerco promovidas pelas forças rivais do partido Kuomintang. O Exército Vermelho, liderado pelo PCCh, rompeu bloqueios inimigos, atravessou terrenos acidentados e enfrentou batalhas ferozes e imensas dificuldades. Dezenas de milhares de soldados perderam a vida ao longo do caminho.
Poucas pessoas representam melhor a conexão entre essas duas jornadas do que Sun Jixian. Durante a Longa Marcha, Sun, na qualidade de oficial do Exército Vermelho, liderou seus homens na travessia de um grande rio sob fogo inimigo, ajudando o Exército Vermelho a superar um perigoso ponto de estrangulamento em 1935. Mais de uma década depois, após a fundação da República Popular da China, ele assumiu uma missão diferente: construir o primeiro local de lançamento de mísseis e satélites do país, no remoto Deserto de Gobi. Sua equipe enfrentou tempestades de areia, consumiu água alcalina, viveu em tendas e cavernas, e transportou equipamentos manualmente por uma paisagem árida.
"Lembro-me de uma vez em que meu pai voltou do deserto; ele colocou a mão no bolso do casaco à procura de doces para mim, mas o que encontrou foi um punhado de areia áspera e fria", recordou Sun Dongning, seu filho de 75 anos.
Na década de 1960, quando a China começou a desenvolver seu primeiro foguete, o país possuía uma base industrial fraca e estava privado de acesso a muitas tecnologias estrangeiras fundamentais. Os cientistas realizavam cálculos utilizando calculadoras mecânicas de manivela e trabalhavam dia e noite em instalações precárias.
O primeiro submarino de propulsão nuclear da China surgiu em condições igualmente difíceis, apoiando-se na autossuficiência tecnológica para superar obstáculos. Incorporado à frota em 1º de agosto de 1974, foi batizado de "Longa Marcha-1". As gerações subsequentes de submarinos nucleares chineses continuaram a ostentar o nome "Longa Marcha".

Uma foto aérea, tirada em 23 de abril de 2019, mostra um novo tipo de submarino nuclear da Marinha do Exército de Libertação Popular (ELP) da China, no mar, próximo a Qingdao, na província de Shandong, leste da China. (Xinhua/Ju Zhenhua)
O legado dessa jornada épica estendeu-se, ao longo do tempo, aos setores militar e tecnológico. Embarcações navais, como a "Zunyi" e a "Chishui", levam nomes de locais associados à histórica marcha. A Loongson, uma importante fabricante chinesa de chips, também batizou duas gerações de seus processadores com os códigos de projeto CZ70 e CZ80, em 2006 e 2016, respectivamente. A sigla "CZ" refere-se a "Changzheng", o nome chinês para a "Longa Marcha".
Para cientistas e engenheiros chineses, esse legado não se resume a um nome; trata-se de uma determinação de perseverar diante de desafios formidáveis, manter a fé no sucesso final e tornar-se mais resiliente a cada contratempo.
Long Lehao, um dos principais projetistas de foguetes da China, citou a falha no lançamento do foguete "Longa Marcha-3B" como exemplo. Como projetista-chefe e comandante-chefe do foguete, Long relembrou que seu cabelo "ficou branco da noite para o dia".
"Não havia tempo para pensar em honra ou desonra pessoal. Lancei-me na nova batalha de identificar as falhas", recordou Long em uma coletiva de imprensa recente.
Após 30 dias e noites de trabalho ininterrupto, sua equipe identificou a causa da falha. Cerca de 551 dias depois, o "Longa Marcha-3B" colocou, com sucesso, suas cargas úteis em órbita.
O Longa Marcha-5, projetado para transportar sondas destinadas à Lua e a Marte, sofreu um contratempo raro quando seu segundo voo fracassou, em 2017. Essa falha representou o momento mais crítico no desenvolvimento do foguete. A equipe de pesquisa realizou análises minuciosas e testes repetidos para solucionar o problema técnico. Em 27 de dezembro de 2019, o foguete completou com sucesso seu terceiro voo e, posteriormente, lançou diversas espaçonaves, incluindo a sonda Chang'e-6, em uma missão para coletar e trazer de volta amostras do lado oculto da Lua.

Esta foto, captada e transmitida autonomamente à Terra por um minirrobô liberado pelo conjunto de pouso e subida da sonda Chang'e-6, mostra o próprio conjunto na superfície lunar, em 3 de junho de 2024. (CNSA/Divulgação via Xinhua)
E a jornada continua. Em julho de 2026, o foguete Longa Marcha-10B realizou a primeira recuperação controlada do primeiro estágio de um foguete pela China, marcando um avanço na tecnologia de lançadores reutilizáveis. Paralelamente, o desenvolvimento de foguetes com maior capacidade está sendo acelerado.
A China tem como objetivo levar astronautas à Lua antes de 2030 e lançar uma missão para trazer amostras de Marte por volta de 2028. Além disso, o país busca o objetivo mais amplo de se tornar uma nação inovadora e uma potência mundial em ciência e tecnologia.
Para gerações de pesquisadores chineses, a "Longa Marcha" é uma jornada que nunca termina. De trilhas acidentadas às fronteiras da tecnologia, seu legado continua a inspirar novas explorações e inovações.