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“Viagens de negócios às avessas”: o que está atraindo as empresas estrangeiras até à China?

Fonte: Diário do Povo Online    03.09.2026 10h13

No passado, empresários chineses percorriam o mundo levando amostras de produtos e cartões de visita em busca de novos pedidos. Hoje, o movimento começa a se inverter: cada vez mais clientes estrangeiros atravessam fronteiras para vir à China conhecer empresas, avaliar tecnologias e fazer negócios. As chamadas “viagens de negócios às avessas” estão se tornando um fenômeno cada vez mais comum.

O termo lembra outro fenômeno que ganhou popularidade nas redes sociais chinesas, o das “compras internacionais às avessas”, quando turistas estrangeiros viajam à China para fazer compras. A diferença é que, nas “viagens de negócios às avessas”, empresas estrangeiras vêm ao país em busca de tecnologias e soluções.

Os dois movimentos refletem uma transformação mais ampla: a ascensão da China na cadeia global de valor, que passa de um papel tradicionalmente associado à fabricação de produtos para uma posição cada mais relevante em inovação e desenvolvimento tecnológico. É uma das expressões mais concretas da chamada “Oportunidade China 2.0”.

A capacidade de inovação que vem sendo desenvolvida pelas empresas chinesas é hoje um dos principais fatores de atração para investidores e parceiros estrangeiros.

Durante muito tempo, a divisão internacional do trabalho era relativamente clara: empresas estrangeiras lideravam a pesquisa e o desenvolvimento tecnológico, enquanto a China concentrava-se na produção. Esse modelo, porém, está mudando.

Em áreas de fronteira, como grandes modelos de inteligência artificial, robôs humanoides e economia de baixa altitude, empresas chinesas já não atuam apenas como fabricantes. Muitas passaram a desenvolver tecnologias próprias e, em alguns segmentos, a definir tendências e padrões tecnológicos.

Segundo dados citados no artigo, os cinco principais grandes modelos de IA nas principais plataformas globais são desenvolvidos por empresas chinesas e respondem por mais de 63% das chamadas. No primeiro semestre de 2026, empresas chinesas de medicamentos inovadores fecharam 81 acordos de licenciamento internacional, com valor potencial de contratos de aproximadamente US$ 110 bilhões — cerca de 80% do total registrado em todo o ano de 2025.

Nesse cenário, o interesse dos clientes estrangeiros também mudou. Eles já não vêm à China apenas para encontrar fabricantes capazes de produzir a custos competitivos. Cada vez mais, procuram tecnologias de ponta, parceiros de inovação e soluções para os produtos da próxima geração.

Outra vantagem importante está na capacidade da indústria chinesa de transformar rapidamente uma ideia em um produto.

No delta do rio Yangtze, por exemplo, empresas do setor de robótica podem contar com uma ampla rede local de fornecedores de componentes. Na província de Anhui, é possível realizar praticamente toda a cadeia de produção de veículos de nova energia. A proximidade entre empresas e fornecedores permite que diferentes elos da cadeia industrial trabalhem de forma coordenada e acelerem o desenvolvimento de novos produtos.

Uma empresa nórdica da cadeia de fornecimento automotivo visitou empresas chinesas de tecnologia três vezes em apenas nove meses. Depois de acompanhar de perto a velocidade com que as tecnologias eram aprimoradas, decidiu realizar na China sua cúpula global de inovação, utilizando um laboratório local como sede do evento.

Essa integração entre talentos, tecnologia e cadeia de suprimentos cria um ciclo rápido de desenvolvimento e feedback, contribuindo para aquilo que muitos chamam de “velocidade chinesa”.

O gigantesco mercado chinês oferece ainda outro diferencial: uma enorme diversidade de cenários de aplicação.

Para uma nova tecnologia, sair do laboratório e chegar a situações reais é fundamental. É nesse processo que produtos e soluções são testados, aperfeiçoados e adaptados às necessidades dos usuários.

Problemas enfrentados por parceiros estrangeiros podem, assim, ser transformados em soluções testadas e aprimoradas no mercado chinês antes de serem levadas a outros países. Com isso, a China passa a exportar não apenas produtos, mas também modelos de negócio e soluções completas.

Casas inteligentes, sistemas inteligentes de inspeção e soluções digitais para a cadeia de frio são alguns exemplos de tecnologias e serviços desenvolvidos na China que vêm ganhando espaço no exterior.

A mudança de “ir ao exterior em busca de pedidos” para “vir à China em busca de soluções” é um reflexo da transformação do setor industrial chinês.

Mudou a direção em que oferta e demanda se encontram. O que permanece é a lógica de abertura, cooperação, benefícios mútuos e ganhos compartilhados.

Ao continuar ampliando sua capacidade de inovação, a China tende a desempenhar um papel cada vez maior na transformação das cadeias produtivas globais e a contribuir com novos motores para a modernização da indústria em todo o mundo.

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