O Programa de Recuperação da Biodiversidade Marinha (Rebimar), desenvolvido ao longo do litoral do estado do Paraná (sul), com o apoio da Petrobras e de instituições científicas, tornou-se uma das iniciativas mais abrangentes e duradouras para o monitoramento e a conservação de tartarugas-verdes no sul do Brasil, combinando pesquisa científica, inovação tecnológica e educação ambiental.
O projeto, implementado pela Associação MarBrasil e com apoio científico de universidades brasileiras, atua na chamada Grande Reserva Mata Atlântica, região considerada estratégica para a conservação da biodiversidade marinha e costeira do país.
A bióloga marinha e pesquisadora Camila Domit, da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e da Associação MarBrasil, explicou que o monitoramento de tartarugas marinhas vem sendo realizado desde 2014, com campanhas anuais em diferentes estações do ano para compreender como as variações ambientais afetam os animais.
Segundo Domit, a equipe desenvolveu uma rede especial para capturar os animais sem feri-los, uma preocupação central do projeto.
As expedições se concentram principalmente na Ilha das Cobras, no complexo estuarino de Paranaguá, onde as tartarugas utilizam a área como local de alimentação e descanso.
De acordo com o projeto, 275 tartarugas-verdes juvenis foram marcadas na região desde 2014, das quais 53 foram posteriormente recapturadas, confirmando uma forte fidelidade à área. Algumas permaneceram no mesmo ambiente por mais de quatro anos, utilizando principalmente uma área de aproximadamente 30 quilômetros quadrados ao redor da ilha.
O monitoramento inclui exames clínicos, coleta de sangue e tecido, biometria, fotografias e dispositivos de rastreamento por satélite para estudar as rotas migratórias e o estado de saúde dos animais.
Domit enfatizou que a pesquisa inclusive contribuiu para a promoção de políticas públicas ambientais. "Conseguimos demonstrar a importância ecológica da Ilha das Cobras, e isso contribuiu para que o governo estadual criasse uma unidade de conservação voltada para a proteção de tartarugas marinhas", observou.
Os estudos também revelaram conexões entre o Paraná e outros estados brasileiros, como São Paulo (Sudeste) e Bahia (Nordeste), reforçando a necessidade de ações integradas de conservação em nível nacional.
No entanto, pesquisadores alertam para as crescentes ameaças às tartarugas marinhas, principalmente a poluição por plástico e a captura acidental. Domit afirmou que cerca de 80% das tartarugas-verdes juvenis monitoradas apresentam detritos em seus tratos digestivos, uma das maiores taxas registradas em estudos científicos internacionais.
Em uma década de monitoramento de praias, o projeto registrou mais de 32 mil animais marinhos mortos, incluindo aves, mamíferos e tartarugas marinhas, dos quais mais de 10 mil eram tartarugas, segundo dados apresentados pela equipe científica.
Apesar da situação preocupante, os pesquisadores acreditam que o conhecimento científico acumulado fortaleceu sua capacidade de influenciar políticas públicas e dialogar com as comunidades pesqueiras.
O diretor executivo da Associação MarBrasil e coordenador financeiro do Rebimar, André Pereira Cattani, declarou que o programa segue o conceito de "Uma Só Saúde", que interliga meio ambiente, animais e seres humanos.
Cattani também destacou o papel educativo do projeto, especialmente entre crianças e jovens. "A educação ambiental desempenha um papel fundamental. Queremos transformar o conhecimento científico em informação acessível à sociedade e trabalhar desde a primeira infância para promover uma relação mais consciente com o meio ambiente."