Favela de São Paulo cria seu próprio banco e moeda

Fonte: Xinhua    16.05.2018 13h22

Por Pau Ramirez

São Paulo, 14 mai (Xinhua) -- Em São Paulo, a maior cidade brasileira, os pobres há muito desdenhados pelos bancos tradicionais decidiram criar não apenas um banco próprio, mas também sua própria moeda.

Espera-se que a nova iniciativa permita que os moradores da favela Paraisópolis, no sul de São Paulo, façam uma coisa que muitos moradores da cidade acham normal: abrir uma conta bancária, obter um cartão de débito e solicitar um pequeno empréstimo.

O banco sem fins lucrativos de Paraisópolis, previsto para iniciar suas operações no segundo semestre do ano, será administrado pela comunidade local, e a moeda de Nova Paraisópolis será uma proposta.

Os clientes do banco também se beneficiarão de descontos em cerca de 8.000 lojas e empresas dentro da favela, estimada em cerca de 100.000 habitantes, de acordo com o último censo, ficando entre as 10 maiores favelas do Brasil.

"Nossa intenção é permitir que as pessoas tenham uma conta e possam realizar saques e pequenos empréstimos", disse o líder comunitário Gilson Rodrigues, presidente do Sindicato de Moradores de Paraisópolis, à Xinhua.

Segundo Rodrigues, o banco priorizará empréstimos a taxas de juros mais baixas do mercado, para quem quiser abrir seus próprios negócios e até oferecer treinamentos sobre como montar e administrar pequenas empresas.

"Quando você incentiva e prepara empresários, o negócio tende a se sair bem e o empréstimo é pago sem atrasos", disse Rodrigues.

Para financiar a iniciativa, a associação de moradores planeja realizar um jantar de arrecadação de fundos para personalidades proeminentes e líderes empresariais. O dinheiro arrecadado será destinado a um fundo para as operações do banco.

Em vez de irem a donos de bancos ou acionistas, os juros dos empréstimos devem ser investidos de volta à comunidade por meio de projetos, como a criação de uma orquestra jovem, uma companhia de dança ou a construção de um restaurante numa cobertura com vista para a cidade.

"Não queremos ganhar dinheiro (...) queremos investir em desenvolvimento comunitário, em empresas locais e em consumo, gerando empregos", afirmou Rodrigues.

A associação de moradores informa que 21% das pessoas que moram em Paraisópolis também trabalham lá.

A favela tornou-se rapidamente famosa há alguns anos, quando serviu de pano de fundo para uma novela brasileira, embora a fama pouco tenha feito para melhorar as condições precárias de vida, como um sistema de esgoto em ruínas e, em alguns casos, inexistente e a falta de infraestrutura ou serviços.

Quase 5.000 famílias na favela que vivem em unidades de aluguel muito baixo recebem um subsídio mensal da prefeitura para ajudar a cobrir estes custos.

O economista Bruno Duarte observou que a iniciativa do banco de favelas foi tentada com sucesso em outras partes do mundo e em partes menos densamente povoadas do Brasil.

Duarte disse que em 2006, o empreendedor social de Bangladesh, Muhammad Yunus, ganhou o Prêmio Nobel da Paz por ser pioneiro no conceito de microcrédito para ajudar os pobres.

A ideia funciona porque atende a uma necessidade básica em áreas marginalizadas, com pouca presença do governo ou acesso ao financiamento tradicional, disse Duarte.

"A maioria dos residentes em áreas rurais do Brasil ou em cidades menores no interior hoje ainda não tem acesso a serviços (financeiros) ou pequenos empréstimos", observou ele.

O fato de os próprios moradores estarem envolvidos na administração do banco de Paraisópolis "cria automaticamente um sistema de autogestão (...) que ajuda a reduzir as taxas de inadimplência" no pagamento de empréstimos, disse ele.

Além disso, ele afirmou, "as pessoas sabem que, ao usar esses bancos, criam empregos e lucram em sua própria comunidade".

(Web editor: Renato Lu, editor)

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